USO FASCISTA DA DOUTRINA DA QUEDA

Difference-between-democracy-dictatorship_aca1f9554a62f6a0É no mínimo contraditório o uso político que certos evangélicos fazem da doutrina da queda.

Esse artigo de fé, certamente, é um dos principais pressupostos intelectuais do cristianismo. As Escrituras ensinam que houve algo na história da humanidade que fez o homem se afastar do seu Criador. Não somos mais o que um dia fomos. Perdemos a chamada -retidão original. Desaprendemos a amar.

Trata-se de doutrina empiricamente comprovável. As guerras, o ódio racial, as desnecessárias desigualdades sociais, perpassam toda a história da humanidade. Alguém poderia objetar, mas o homem nasce bom, o meio é que o corrompe. Uma questão, entretanto, permanece: quem cria o meio?

Porém, com base nessa verdade, que torna necessária a utilização da espada de Romanos 13, muitos são levados a fazer aplicações práticas indevidas e desumanas no campo político-social.

Eles falam exclusivamente em lei e ordem. Apoiam candidatos a cargo público da linha tiro, pancada e bomba. Querem leis rigorosas e penas severas para qualquer modalidade de crime. Demonstram até mesmo abertura para a supressão dos direitos democráticos em nome da segurança pública.

Acontece que a doutrina da queda do homem nos remete para três outras verdades, que fazem rigoroso contraponto ao que alguns pastores ensinam, e que, consequentemente, tem tornado igrejas inteiras terreno fértil para a disseminação do fascismo.

Se houve uma queda, essa tendência humana ao mal se manifesta também nos operadores do sistema de justiça criminal. A questão é: quem julga os juízes e vigia os vigias? Pode agir livre e impunemente quem, em nome de mais de 200 milhões de pessoas, tem o poder de acusar, julgar, prender e matar? Faz sentido tirar as amarras do Leviatã?

Crer na doutrina da queda também torna o cristão amante da democracia e absolutamente avesso a regimes totalitários. Sendo quem somos, nenhum de nós pode exercer função pública que não esteja exposta à crítica aberta da sociedade, à pressão nas ruas, à vigilância da imprensa. A farda não regenera o homem. Alguém já disse que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Mais um ponto central. Se há em você e em mim uma natureza predisposta ao mal, devemos lutar por modelos de sociedade que não funcionem como obstetras do crime. Não funcionamos bem quando vivemos em meio ao desemprego, à desigualdade de oportunidade de vida, à injustiça.

Não há a mínima dúvida que a maldade latente tende a não se tornar patente se tivermos nossos interesses pessoais atendidos. Diz o livro de Provérbios (30: 7-9) “... não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus”.

Poderia reforçar cada ponto supramencionado usando os argumentos de uma outra doutrina, pilar da ética cristã: a criação do homem à imagem de Deus. Eles tornam -o combate à desigualdade social, a manutenção da divisão tripartite de poder, a defesa dos direitos civis e sociais, a luta pela democracia-, elementos de uma ética positiva que não negocia o respeito à santidade da vida humana em nome do que quer que seja.

Um espírito entrou em muitas igrejas evangélicas do país. Falo sobre um modo de pensar e sentir alheio ao evangelho. Vejo muito crente servindo, repito, a ideais fascistas.

Os pregadores brasileiros, portanto, estão diante da obrigação de pregarem, com a voz e a vida, todo o conselho de Deus. Lutando contra a falta de conhecimento das Escrituras, apresentando uma teologia cujas implicações práticas sejam simétricas, denunciando toda cooptação ideológica (seja marxista, seja neoliberal) e profetizando contra o desamor na vida dos que se dizem crentes, por sinal, outro lamentável efeito da queda.


SERMÃO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO (6: 41-47)

V. 41. “Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu”.

  • Judeus mostravam-se chocados com a megalomania de Jesus. Esse é o ponto. Nenhum ser humano jamais falou desse modo. Portanto, cremos em Cristo ou o ignoramos. Se ele não é o que disse ser, estamos diante de um cruel impostor.
  • Jesus declara que ele é a resposta de Deus para a fome humana. Privado da sua companhia, o ser humano está fadado à insatisfação. Tende a morrer de fome.
  • Ninguém na história da humanidade teve mais direito do que Cristo de poder fazer declaração como essa.

V. 42. "E diziam: não é este Jesus, o filho de José? Acaso, não lhe conhecemos o pai e a mãe? Como, pois, agora diz: desci do céu?”

  • A familiaridade com Cristo os fez descrer do que Jesus declarava acerca de si mesmo. Eles se viram, portanto, diante de um problema epistemológico. 
  • O conhecimento da verdade revelada pelo evangelho requer abertura completa para o estranho e surpreendente modo de Deus se revelar aos homens.
  • Ele não veio com aparência externa de divindade. 

V. 43. “Respondeu-lhes Jesus: não murmureis entre vós”. 

  • Cristo os chama para em vez de murmurarem despirem-se dos seus preconceitos e buscarem se certificar do fato se Jesus era quem disse ser.
  • Não se dedicar a esse exercício é desonestidade intelectual.
  • Quem o faz, livre das amarras do pecado, cai de joelhos diante de Cristo.

V. 44. "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no ultimo dia”. 

  • Quem pode vencer o preconceito que impede o encontro salvador com Cristo? A resposta do Senhor Jesus vai de encontro ao senso comum. Ele simplesmente declara que somente os predestinados vencem as trevas da ignorância e se aproximam da luz. 
  • Ninguém pode! Absoluta impotência. Onde reside essa incapacidade total? Na mente, no coração e na vontade. 
  • O Pai envia Cristo a nós e envia a nós a Cristo. 
  • A partir de um ponto de sua vida, Deus começa a lidar de modo salvífico com o eleito, operando em sua mente e coração. Ele o leva a desejar sentido para viver, perdão de pecados, vida eterna. 
  • Por que esse amor é eterno, no Dia do Juízo Final, os eleitos sairão do túmulo. É impossível que a morte os retenha! 

V. 45. “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus”. 

  • Essa obra universal de salvação foi predita pelos profetas ( Isaías 54: 13). 
  • Deus haveria de levar milhões ao encontro com Cristo. 
  • O que significa ser ensinado por Deus? 1. Ter consciência de que tem uma alma. 2. Ver a futilidade da vida debaixo do sol. 3. Estar convicto da pecaminosidade pessoal e do mal existente no mundo. 4. Anelar pelo perdão. 5. Ser levado a Cristo.

V. 46. “Não que alguém tenha visto o Pai, salvo aquele que vem de Deus; este o tem visto”. 

  • Cristo declara duas verdades. Nenhum ser humano tem conhecimento perfeito de Deus. Somente um o conhece, o que significa um ser infinito perante um ser infinito numa relação de amor perfeito e eterno. Que glória! Não há nada mais estupendo do que isso no universo. 
  • Portanto, quando o assunto é Deus a autoridade máxima é seu Único Filho.
  • Tentar conhecer a Deus sem a luz de Cristo sempre significará manter relação com um ídolo. 

V 47. "Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna”. 

  • A confiança em Cristo e nas suas promessas habilita o ser humano a tomar posse da vida eterna. 
  • O que é a vida eterna? É a vida de Deus na alma. É a vitória sobre tudo o que ameaça a felicidade humana. É o triunfo da vida sobre a morte. 

 

Antonio C. Costa

IP Barra/Rio 


500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE MERECEM CELEBRAÇÃO E AÇÕES DE GRAÇA

Martin-luther-9389283-1-402Entramos hoje em outubro de 2017. Mês dos 500 anos da Reforma Protestante. Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, no dia 31 de outubro de 1517, fixou suas 95 teses nas portas da Igreja de Wittenberg, na Alemanha. Um ataque frontal desferido contra a venda de indulgências, que anunciava a emergência de uma teologia que viria a emancipar do seu "cativeiro babilônico" os cristãos.

Lutero traz ao mundo o melhor do humanismo cristão. Sua mensagem libera os seres humanos do apelo à autoridade e os faz livremente seguir a razão e as Escrituras. Todos são chamados a voltarem para o texto inspirado, sem a tutela de concílios e papas. "Se vocês não me convencerem pela razão e pelas Escrituras que estou errado, eu não me retratarei. Minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Ir contra a consciência não é correto nem seguro".

Mais maravilhoso ainda, foi retornar aos originais das Escrituras para encontrar um Deus doce. Seu maior legado foi apresentar Cristo como a chave hermenêutica da Bíblia. Tudo passou a ser lido na perspectiva de um Deus-Pai ensandecido de amor pelos homens e que enviara o Deus-Filho para salvá-los. Poucas vezes se viu na história da humanidade uma única verdade desmontar toda uma estrutura institucional e fazer os seres humanos romperem subitamente com toda uma cultura religiosa.

Somos justificados pela graça de Deus mediante a fé! O pecador arrependido que correu para Cristo é considerado justo por Deus não por praticar obras de justiça. Ele pratica obras de justiça porque foi tornado justo pela graça divina, que estava em Cristo reconciliando Deus com o mundo.

Cristãos protestantes brasileiros, celebrem essa data! Usem o mês de outubro para estudarem o que foi pregado no século 16. Busquem conhecer as biografias dos reformadores. Submetam suas igrejas ao exame dessa tradição tão bela a fim de saberem se elas são de fato protestantes.

Antonio C. Costa


500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE

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Em homenagem ao grande reformador alemão, Martinho Lutero. Uma das influências mais decisivas na minha formação intelectual e espiritual. Com ele conheci um Deus doce, um Cristo amável e um evangelho que liberta o homem do poder da morte, do inferno, da consciência, da lei, da religião, do juízo final.

Ele me fez tirar os olhos do Monte Sinai pegando fogo para contemplar Jesus mamando no seio de Maria.

Está chegando outubro. 500 anos da Reforma Protestante. Mês de ações de graças! Não perca nos dias 2 e 3/10 Conferência sobre a Reforma no templo novo da IP Barra (21-24931999).

Sim, sou cristão protestante!

#500AnosReforma


CRISTIANISMO E A SUPRESSÃO DAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS

001-gnpi-092-jesus-pilateQuando vejo supostos cristãos apoiando a supressão das liberdades democráticas em nome do combate ao que quer que seja, penso no quanto o conhecimento das Escrituras é escasso nas igrejas.

Toda teoria política que tenha como fundamento o cristianismo deve ter como pressuposto duas verdades:

1. O ser humano é portador de dignidade intrínseca à sua origem, em razão de ter sido criado à imagem de Deus. Doutrina da criação.

2. O ser humano é escravo do egoísmo. Perdeu sua retidão original. Doutrina da queda.

Como implicação prática de ambas as verdades, emergem dois valores inegociáveis:

1. O ser humano não pode ser governado sem o seu consentimento. Todo autoritarismo político representa afronta à santidade da vida humana. Homens não podem ser tratados como gado.

2. O ser humano não pode ser investido de autoridade que não possa ser questionada, contraditada e passível de ser suprimida. O cristianismo é um semeador de desconfiança política. A gola clerical, o jaleco branco e a farda não tornam o homem santo.

Peço que os que se dizem cristãos leiam a Bíblia e a história do século XX antes de proporem o que é contrário ao espírito do evangelho e à razão esclarecida pela saga dos povos.


CONFERÊNCIA IP BARRA SOBRE OS 500 ANOS DA REFORMA

A IP Barra entende que essa data não pode passar em branco. Marco na vida da igreja. Divisor de águas na história do Ocidente.

Por isso, daremos início às celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante numa conferência teológica que será realizada nos dias 2-3/10. Nas pregações do mês de outubro, falaremos sobre esse glorioso evento e suas implicações para nossos dias. No dia 26/10, haverá no nosso novo templo culto especial de ações de graças.

Sim, somos gratos a Deus pelo protestantismo!

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IP BARRA INAUGURA SEU NOVO TEMPLO

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Desde o início, apostamos num modelo de igreja reformado, baseado em pregação expositiva. Mas não apenas isso. Plantamos igrejas, investimos nos campos missionários, organizamos instituições de ensino, usamos os meios de comunicação de massa, buscamos relevância cultural e política.

Nos últimos meses, passamos por grandes mudanças, após um período de surpreendentes lutas.

Organizamos a igreja em grupos pequenos, fizemos inédita programação visual, reformulamos a Escola Dominical, trouxemos um pastor para trabalhar exclusivamente com adolescentes e jovens, decidimos voltar a plantar igreja, agora, com foco nas favelas do Rio. Já começamos uma!

Domingo próximo será muito especial para todos nós. Inauguraremos o novo templo. Moderno, confortável e versátil. Não pouparemos recursos em tecnologia. Acreditamos na vocação de alcançar milhares de pessoas por meio da transmissão em tempo real dos nossos cultos.

Somos gratos a Deus. Temos um histórico de erros, insucessos e frustrações. Mas, aprouve a Deus nos perdoar, renovar e sustentar.

Sinto-me muito feliz e esperançoso com a nossa igreja. Estou certo que Deus juntou muita gente séria, capaz e amorosa na IP Barra. Em nome dessa gente querida, gostaria de convidá-lo a estar conosco no próximo "Dia do Senhor".


DIFERENÇA ENTRE O DEBATE OCIOSO E A COMPAIXÃO ATIVA

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Disse recentemente numa igreja na qual preguei: "Não sei qual o seu pensamento político-econômico. Se você é cristão é importante que esteja certo que o que propõe e defende publicamente gere riqueza sustentável e promova justa distribuição de riqueza.

Caso você esteja falando irresponsavelmente sobre tema tão vital para o bem-estar dos seres humanos e, em especial, socorro aos pobres, você será tido como responsável aos olhos de Deus. Um dia daremos conta de cada palavra irrefletida que saiu da nossa boca.

Que sua paixão pela sua ideologia favorita e repulsa por aqueles de quem discorda não sejam superiores ao seu amor pelo pobre. Ninguém lida com a vida dos despossuídos impunemente. Deus sairá em defesa do necessitado.

O amor exige que não esperemos ociosamente por um "choque de capitalismo" ou "revolução do proletariado seguida da abolição da propriedade privada" para vivermos num mundo menos desigual.

Você vive num país tomado por bolsões de miséria. Passar longas horas nas redes sociais discutindo teorias econômicas e ideologias políticas pode servir de desculpa para o egoísmo e a falta de misericórdia.

Cristo, ao ver uma multidão faminta, perguntou a Felipe: "Onde compraremos pães para lhes dar de comer?"


ENTREVISTA À JOVEM PAN

Entrevista concedida à Jovem Pan. Se você quiser entender o que penso, veja essa reportagem. Se possível, ouça o áudio. Perguntas difíceis, das quais procurei não fugir.

Link da entrevista: http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/no-fio-da-navalha-o-desafio-de-nao-ter-lado-na-guerra-civil-carioca.html


APENAS UM MENINO

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Estava ontem (19/8) no Jacarezinho, quando me deparei com a cena desse menino carregando o corpo de um rapaz que havia acabado de morrer por um tiro que atingiu o seu pescoço. Espero voltar à comunidade e conversar com ele. Sua expressão facial não sai da minha cabeça.


CHUVA DE BALA

Por um pouco, um funcionário do Rio de Paz e eu não perdemos a vida esta semana no Jacarezinho. Três dias atrás, estava na comunidade, a fim de acompanhar de perto o drama do morador pobre, que nesses últimos dias viu o local onde mora ser transformado em Síria latino-americana.

Vínhamos andando pelas ruas vazias, num passo apressado e hesitante, tomados de muito medo, na companhia de alguns poucos moradores que buscavam refúgio dentro de casa, quando entramos na sede do Rio de Paz, que está situada em frente ao canal de esgoto que corta a favela.

Não deu cinco minutos, para que, sem que o esperássemos ou imaginássemos que pudesse acontecer, viesse um helicóptero, dando um rasante a cinco metros de onde estávamos, desferindo rajada de tiro de fuzil na rua.

Nossa sede levou seis tiros nos últimos dias. Numa outra rua, que dá acesso à comunidade, construímos o "Aquário de Música", no qual funciona o nosso projeto de música. Em seis ocasiões diferentes, levamos cerca de 200 tiros de fuzil e pistola, que atingiram janelas, paredes, livros, portas. Numa das ocasiões, nossos voluntários tiveram que se jogar no chão para se protegerem das balas. Tivemos, por medida de segurança, de suspender temporariamente as aulas e outras ações humanitárias que realizávamos no local.

O drama maior, contudo, é o que tem sido vivido pelos moradores, muitos dos quais pudemos entrevistar em meio ao tiroteio.

Olhos arregalados, rostos pálidos, respiração ofegante, denotavam pânico. Eles nos falaram de crianças tampando os ouvidos na hora do confronto, de pais e filhos indo para debaixo da cama para se protegerem e famílias inteiras buscando refúgio dentro de banheiro. Percebemos várias casas com centenas de tiros em portões, paredes e janelas. Pessoas sem poder sair para o trabalho. Gente nas vias de acesso à favela esperando o tiroteio cessar a fim de poderem voltar para casa, inclusive mães com bebês no colo.

Em suma, o pobre está vivendo um autêntico desespero.

 

Antônio Carlos Costa

Ps. Mensagem postada no meu FB no dia 18/8.