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agosto 2017

ENTREVISTA À JOVEM PAN

Entrevista concedida à Jovem Pan. Se você quiser entender o que penso, veja essa reportagem. Se possível, ouça o áudio. Perguntas difíceis, das quais procurei não fugir.

Link da entrevista: http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/no-fio-da-navalha-o-desafio-de-nao-ter-lado-na-guerra-civil-carioca.html


APENAS UM MENINO

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Estava ontem (19/8) no Jacarezinho, quando me deparei com a cena desse menino carregando o corpo de um rapaz que havia acabado de morrer por um tiro que atingiu o seu pescoço. Espero voltar à comunidade e conversar com ele. Sua expressão facial não sai da minha cabeça.


CHUVA DE BALA

Por um pouco, um funcionário do Rio de Paz e eu não perdemos a vida esta semana no Jacarezinho. Três dias atrás, estava na comunidade, a fim de acompanhar de perto o drama do morador pobre, que nesses últimos dias viu o local onde mora ser transformado em Síria latino-americana.

Vínhamos andando pelas ruas vazias, num passo apressado e hesitante, tomados de muito medo, na companhia de alguns poucos moradores que buscavam refúgio dentro de casa, quando entramos na sede do Rio de Paz, que está situada em frente ao canal de esgoto que corta a favela.

Não deu cinco minutos, para que, sem que o esperássemos ou imaginássemos que pudesse acontecer, viesse um helicóptero, dando um rasante a cinco metros de onde estávamos, desferindo rajada de tiro de fuzil na rua.

Nossa sede levou seis tiros nos últimos dias. Numa outra rua, que dá acesso à comunidade, construímos o "Aquário de Música", no qual funciona o nosso projeto de música. Em seis ocasiões diferentes, levamos cerca de 200 tiros de fuzil e pistola, que atingiram janelas, paredes, livros, portas. Numa das ocasiões, nossos voluntários tiveram que se jogar no chão para se protegerem das balas. Tivemos, por medida de segurança, de suspender temporariamente as aulas e outras ações humanitárias que realizávamos no local.

O drama maior, contudo, é o que tem sido vivido pelos moradores, muitos dos quais pudemos entrevistar em meio ao tiroteio.

Olhos arregalados, rostos pálidos, respiração ofegante, denotavam pânico. Eles nos falaram de crianças tampando os ouvidos na hora do confronto, de pais e filhos indo para debaixo da cama para se protegerem e famílias inteiras buscando refúgio dentro de banheiro. Percebemos várias casas com centenas de tiros em portões, paredes e janelas. Pessoas sem poder sair para o trabalho. Gente nas vias de acesso à favela esperando o tiroteio cessar a fim de poderem voltar para casa, inclusive mães com bebês no colo.

Em suma, o pobre está vivendo um autêntico desespero.

 

Antônio Carlos Costa

Ps. Mensagem postada no meu FB no dia 18/8.


CASA VAZIA

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Essa é a casa da Rosângela, vista do meu jardim. Ela morreu semana passada, depois de longa e extenuante batalha contra o câncer.

Ela era a alegria da rua. Amiga de todos os vizinhos. Amante dos animais, das árvores, das flores, do belo.

Gostaria de ter alma poética para descrever o que sinto ao olhar para as plantas, os vasos nas janelas e os detalhes de uma casa cuja beleza foi concebida por alguém que não está mais entre nós. Sinto falta de chegar do trabalho e ver do outro lado da rua a luz acesa. Ela e o seu marido Henrique não tiveram filhos. A casa está vazia, como um corpo sem o sopro da vida.

Encontrei esses dias uma mulher que disse com indisfarçável orgulho e estranha expressão de triunfo que havia abandonado a fé aos quinze anos de idade e que era muito feliz sem Deus. Não consigo.

Sem a esperança que hoje tenho no evangelho, seria um perturbado, em busca desesperada, sem dar descanso noite e dia à minha mente, da resposta para o mistério dessa casa vazia do outro lado da rua.
Você não me encontraria lutando pelas causas mais justas e belas, você não me veria falando sobre os prazeres do amor entre um homem e uma mulher, você não me ouviria falar sobre as belezas de um universo desencantado. Em silêncio, conduziria minha busca sem tentar convencer a quem quer que seja sobre a "angst" da condição humana. Não veria sentido em dizer às pessoas que a vida não tem sentido.

Qual ser humano pode ser mais sensato do que aquele que está em busca do seu criador porque ainda não o encontrou ou do que aquele que o procura para conhecê-lo e amá-lo mais porque já o encontrou?

Um dia, sua casa também ficará vazia de você. Para mim é um enigma que essa não seja a questão mais importante da sua vida.

Antônio C. Costa


FÉ E RAZÃO

"Há um fundamento intelectual para a fé. Crer é também pensar. Contudo, o cristianismo sempre será um absurdo para os que estão do lado de fora, mas verdadeiro, racional e belo para os que estão do lado de dentro". Compartilhe e deixe nos comentários sua pergunta ou sugestão de temas para os próximos programas:

 


DUNKIRK E CIDADANIA

20525552_1946932032187614_5067878876584798582_nFui levado às lágrimas assistindo a Dunkirk. O papel desempenhado por simples cidadãos britânicos na salvação de mais de 300 mil soldados, que encontravam-se literalmente entre o mar e as tropas de Hitler, é sem dúvida uma das páginas mais belas da história da humanidade. Eles lançaram seus pequenos barcos ao mar, enfrentando as ondas, os tiros, os torpedos e as bombas movidos pelo amor à pátria e à fidelidade aos seus compatriotas, que se encontravam no campo de batalha.

Dunkirk fez-me sentir humilhado com meus parcos esforços pela transformação do meu país. Pedi a Deus coragem, amor, ideias, força, estratégia, para vencer os males que assolam o Brasil: o horror dos 60 mil homicídios anuais, a crueldade da morte de civis vítimas de bala perdida, a indiferença criminosa perante o assassinato de tantos policiais militares, a iniquidade da desigualdade social, a imoralidade da corrupção nos três poderes da República, a obscenidade das prisões superlotadas. Como enumerar as iniquidades desse país tão confuso, injusto e violento no qual tanto o seu povo quanto a sua cultura precisam ser resgatados do seu estado de petição de miséria?

Saí do cinema pensando no massacre em curso nas cidades nordestinas, no bebê Arthur que foi morto em decorrência de uma bala perdida que o atingiu quando ainda se encontrava no ventre da mãe, nas meninas Vanessa e Maria Eduarda mortas em operações policiais, nos 92 PMs assassinados no Rio de Janeiro e no quanto a manutenção de Michel Temer no cargo de presidente da República desmoraliza a democracia brasileira. Todos esses crimes ocorrendo perante os olhos de uma nação que se recusa lançar-se às ruas, em pleno regime democrático, para lutar por um país mais decente

É impossível assistir a Dunkirk e não sentir vergonha da forma como nós brasileiros lidamos com as injustiças do nosso país. Por que não nos lançamos às ruas para salvar os milhares que morrem nesse mar de violação de direito?