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maio 2017

POR QUE QUERO A RENÚNCIA DO PRESIDENTE

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Eu não aguento mais ver morte, sangue, massa encefálica esparramada no chão, policial morto, pais enterrando filhos assassinados.

Essas imagens foram registradas por mim na sexta-feira passada, na favela Mandela, Zona Norte do Rio. Fui chamado às pressas para fazer mediação entre policiais e moradores em razão de mais uma morte por bala perdida ocorrida dentro de comunidade pobre -na qual moram os matáveis. Vi o corpo do Sr. Wilson, 63, estendido no chão do barraco onde morava, após levar um tiro que acertou seu olho esquerdo e explodiu sua cabeça.

Para quem está na ponta, participando de enterro de quem foi executado, consolando parente de vítima de homicídio, buscando controlar a fúria da multidão indignada por se ignorada pelo poder público, o quadro da política nacional causa ira e náusea.

Um Congresso Nacional formado pelo poder econômico, que por meio de caixa dois, escolheu quem melhor representaria os interesses de empresários que se comportam como chefes de facção criminosa.

Governando o país, sem a mínima credibilidade e autonomia, um presidente cuja campanha foi bancada com verba pública e propina paga por bilionários inescrupulosos.

Parte da sociedade, por sua vez, comporta-se como se tivesse seus bandidos favoritos. Aplaude a Polícia Federal e o Ministério Público quando trazem à lume os crimes dos seus desafetos e vaia quando seus políticos de estimação são investigados.

Por que o país não está unido para banir do poder um presidente da República cuja permanência no cargo representa insulto à democracia? Nesse cenário de corrupção desinibida, descarada, ultrajante, 14 milhões de brasileiros amargam desemprego e o pobre é vítima de bala perdida dentro de casa.

Enquanto isso, em Brasília, quem deveria governar passa a maior parte do tempo procurando se defender dos crimes que praticou, sem saber o que significa corar de vergonha.

Antônio C. Costa
Fundador da ONG Rio de Paz


QUEBRA-QUEBRA EM BRASÍLIA

Temer tem de renunciar. Condenamos a violência. Nada a justifica. Contudo, estamos há meses alertando quanto à chegada desses dias de turbulência, conflitos sociais, economia estagnada, perda de legitimidade política. Temer jamais deveria ter assumido o mais alto posto da República.

A chapa Dilma/Temer ganhou as últimas eleições com o dinheiro que foi roubado do pobre, do contribuinte, do trabalhador; por meio de um conluio com corruptos, donos de empresas que deveriam ser chamadas de facções criminosas.

A violência injustificável testemunhada por nós hoje* em Brasília tem suas causas: a sede de poder da classe governante, a irresponsabilidade de um parlamento fraco também eleito com dinheiro da corrupção, a lentidão do TSE de cassar o mandato de Temer e a insistência de setores inteiros da sociedade na preservação do mandato de presidente sem credibilidade.

Agora, nos resta pressionar pela renúncia e lutar por um governo legítimo, que, devido à sua retidão, não tema Curitiba, e ajude um país de 14 milhões de desempregados retomar o rumo do crescimento econômico e da promoção da justiça social.

 

Antonio C. Costa

*Quarta-feira passada.


SIGNIFICADO DAS MÁSCARAS VERMELHAS

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A sociedade brasileira experimenta um misto de perplexidade e indignação em razão do escandaloso envolvimento de membros dos poderes Executivo e Legislativo com corrupção. Além do seu desmedido apego não republicano ao poder, chama a atenção de todos o fato de esses mesmos representantes do povo brasileiro não expressarem nas suas faces constrangimento pelos crimes que praticaram. Eles não sabem o que significa corar de vergonha.


PAUTA DO MOMENTO É A SAÍDA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

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Desde antes do impeachment da ex-presidente Dilma, tenho dito que a presença de Temer no mais alto posto da República seria uma desgraça para o Brasil.

1. Como tirar um e deixar o outro? Não há o que justifique decisão como essa. Péssima para a democracia. Desmoralizante. Em nome da governabilidade e do anseio por banir do governo um partido político que cometeu tantos e tão graves crimes, os mais diferentes setores da sociedade brasileira praticaram o que tanto criticaram no partido da presidente deposta.

2. A prática de crime eleitoral é o principal motivo para o banimento da vida pública tanto de Dilma quanto de Temer. Fomos enganados. Eles usaram o dinheiro do pobre para se elegerem. Sob esse ponto de vista, desfaz-se o discurso do golpe.

3. Era evidente, como reiterei na redes sociais, que Temer uniria o Brasil. Contra ele.

4. O pronunciamento do Temer foi lamentável. Ele deveria ter aberto espaço para através de uma entrevista coletiva responder perguntas dos nossos jornalistas. Ele não tem o direito de falar e sumir. O povo brasileiro tem questões a apresentar. Em seguida, deveria renunciar, pedir perdão à nação e se defender na justiça.

5. A decisão de Temer de se manter no cargo -diante de tão graves acusações, com um índice de aprovação do seu governo, por parte da população brasileira, de apenas 9%; e sua base política no Congresso Nacional arruinada-, revela que seu apego ao cargo é maior do que o seu interesse pelo bem-estar do povo brasileiro.

Concluo, declarando que não vejo a hora de essa crise política terminar. Sou pastor e ativista social. Lido todos os dias com empresários frustrados, trabalhadores desempregados, pessoas endividadas, policiais morrendo, moradores de favela sendo vítimas de bala perdida, servidores públicos com salário atrasado.

Sinceramente, 500 milhões em propina para mais de 1.800 políticos, pagos por uma facção criminosa chamada JBS, deveria levar a todos nós às ruas a fim de exigir um novo governo e um novo parlamento.

Que você e eu estejamos nas ruas lutando pelo direito de não sermos governados por corruptos profissionais, e que Deus se compadeça do Brasil.


BRASIL PRECISA QUE VOCÊ SE CANDIDATE

CinemaAs delações premiadas da operação Lava-Jato somadas às últimas revelações das facções criminosas JBS e Odebrecht, entre outras, mostram que a nossa classe política é a escória da sociedade brasileira. Temos como representantes, nas três esferas de poder -para desgraça de milhões de miseráveis e trabalhadores submetidos a carga desumana de trabalho e péssimos salários-, verdadeiros bandidos, que trabalham para biliardários, principais responsáveis por um país do tamanho de um continente, cuja economia é a sétima mais rica do mundo, conviver com indicadores sociais tão inaceitáveis. 

O que deveríamos fazer? Nos candidatarmos. Sim! Nos filiarmos a partidos políticos a fim de disputarmos cargos eletivos. Estamos nesse fundo de poço porque os canalhas supramencionados disputam com garra esses postos enquanto resumimos nossa indignação a discussões estéreis incapazes de mudar a história.

Hoje cedo, enquanto fazia minha leitura bíblica devocional, examinando o livro de Ester, me deparei com dois textos que revelam os motivos que nós cristãos temos para atuarmos na esfera pública, seja como militante, seja como funcionário público, seja como político. 

Veja as palavras de Ester, no capítulo 8 verso seis: "Pois como poderei ver o mal que sobrevirá ao meu povo? E como poderei ver a destruição da minha parentela?" 

Observe agora o que é dito sobre Mordecai, no último verso do referido livro do Antigo Testamento: "Pois o judeu Mordecai foi o segundo depois do rei Assuero, e grande para com os judeus, e estimado pela multidão de seus irmãos, tendo procurado o bem-estar do seu povo e trabalhado pela prosperidade de todo o povo de sua raça". 

Os dois lutaram pelo seu povo a fim de que este tivesse assegurado o direito à vida. Enfrentaram leis draconianas, fizeram lobby e defenderam o direito de uma minoria oprimida. Como não levamos a sério passagens bíblicas como essas?

Por isso, faço um apelo a você. Entre na política. "... e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?" (Es 4: 14)


DIVISÃO BURRA

Não há motivo para nos dividirmos em razão de preferência político-partidária. A classe política brasileira não merece isso de nós. Os partidos políticos brasileiros estão imersos em corrupção, assumindo características de facção criminosa. 

É momento de nos unirmos em torno daquelas pautas suprapartidárias, que estão acima até mesmo de diferenças ideológicas, a fim de que o país saia da crise que se encontra.


RENÚNCIA JÁ PARA ELEIÇÕES DIRETAS JÁ

18519801_1910314905849327_4868468852440948390_nO Brasil exige a renúncia de Temer. O Congresso Nacional tem agora o dever de votar emenda constitucional que permita a escolha por voto popular do novo presidente da República. Eleições diretas já! 

Dilma e Temer praticaram abuso de poder econômico nas eleições passadas. Foram eleitos de modo fraudulento, usando verba pública. 

O país precisa de um governo que não tema Curitiba. Presidente que, devido à sua retidão, esteja imune à Lava-Jato. Carecemos de estabilidade política que permita a retomada do crescimento econômico. São 14 milhões de desempregados! 

Mais do que isso, a democracia pressupõe o respeito à lei! A Constituição Federal tem de ser respeitada, o que produz previsibilidade e segurança, sem as quais, no lugar da justiça reinará o jeitinho brasileiro, responsável em grande parte pela nossa desventura e atraso. Se houve crime eleitoral e, agora, crime de tentativa de obstrução da justiça, o presidente tem de ser deposto caso não renuncie. 

Esse é momento de passarmos por cima do que nos divide, e juntos, em torno do que nos une, lutarmos para que o Brasil da Casa Grande e Senzala, do massacre do Carandiru, da chacina de Vigário Geral, do coronelismo, do patrimonialismo, do nepotismo, do "você sabe com quem está falando?", do sertão nordestino, das favelas, das crianças mendigando nas ruas, dê lugar ao Brasil da justiça e do direito.


DEPRESSÃO E A OBRA MISSIONÁRIA

Jeremiah-detailPedimos a Deus mente para pensar, coração para sentir e vontade para agir. Aí nos abatemos com a insanidade, a maldade e o sofrimento desses seres que são algozes e vítimas, que matam e morrem, que mentem e são enganados, que criam sistemas de exploração e são vítimas dos sistemas que criaram. Que mundo. Se você não pode dizer, "que mundo", está precisando de santificação. 

Estar atento aos fatos, fazer-se presente no mundo (ou submundo) real, tentar mudar o rumo da história, remete-nos para a luta diária contra a depressão. Pensar, amar e lutar nos fazem sofrer. 

Daí a necessidade de termos amigos para conversar, mantermos contato com a natureza, escutarmos boa música, orarmos em solitude, lermos a Bíblia, ouvirmos boa pregação, vestirmos nossa armadura completa, buscarmos força através da leitura das biografias dos santos, trazermos à memória o que nos pode dar esperança e nos lembramos do exemplo de Cristo, que chorou por Jerusalém, que se angustiou no Getsemani, que viu na sua crucificação o rosto do Pai se apagar, mas que trouxe vida, luz e liberdade ao mundo dos homens. 

Aqui estamos nós, você e eu, em meio a muita fragilidade, frustração, perplexidade, oposição, lutando por trazer transformação a um mundo em agonia.

Deus quer que você e eu saibamos, entretanto, que sua graça é suficiente para que não percamos o ser, e poderosa para nos fortalecer a fim de que por onde passemos o perfume de Cristo seja exalado através da nossa vida.


COBERTURA DA MANIFESTAÇÃO DE ONTEM EM COPACABANA

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GLOBONEWS: http://g1.globo.com/globo-news/videos/t/todos-os-videos/v/domingo-das-maes-no-rio-tem-protesto-e-oracoes-pela-paz/5868932/

GLOBO ONLINE: https://oglobo.globo.com/rio/maes-que-perderam-filhos-vitimas-de-violencia-em-comunidades-realizam-ato-21339285

G1: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/videos/t/todos-os-videos/v/ong-rio-de-paz-e-maes-de-comunidades-protestam-em-copacabana-contra-violencia/5868636/


RIO DE PAZ E MORADORES DE FAVELA REALIZAM ATO PÚBLICO EM COPACABANA NO DIA DAS MÃES

O Rio de Paz participará de manifestação pública na praia de Copacabana, em frente à avenida Princesa Isabel, nesse próximo domingo (14) às 12h. 

Dezenas de moradores das favelas de Manguinhos, Mandela, Jacarezinho, Rocinha, Cerro-Corá, Maré, entre outras, participarão de um almoço de "Dia das Mães" nas areias da praia. 

A escolha do local foi feita pelos próprios moradores das favelas mencionadas, que tencionam tornar público o absurdo de terem de escolher uma praia da Zona Sul do Rio para celebrarem o Dia das Mães -por se sentirem mais seguros nela do que nas comunidades pobres onde moram-, sujeitas a tiroteios que têm interrompido a vida de cidadãos e crianças, levando à incerteza e desespero número incontável de famílias. 

Uma mesa de 70 metros de comprimento, coberta por uma toalha vermelha, que simboliza o sangue das vítimas, será estendida nas areias da praia. Quatro painéis serão grafitados por artistas de favela, que usarão como temas a insegurança e condições precárias de vida do morador de comunidade pobre. 

O objetivo do ato público é cobrar o direito das mães e famílias da favela de poderem viver livres da violência com armas de fogo.

Apoiam o protesto as seguintes instituições: 

- Fiocruz.
- Sindicato dos trabalhadores da Fiocruz (Asfoc).
- Associação de moradores do Parque Oswaldo Cruz.
- Conselho comunitário de Manguinhos.
- Movimento Favelas contra a Violência.
- Associação de Moradores do Nelson Mandela.
- Associação de moradores do Samora Machel. 
- ONG Rio de Paz.

"O Rio de Janeiro está atravessando, na área da segurança pública, crise difícil de ser superestimada. Este ano, tivemos o primeiro trimestre mais violento dos últimos cinco anos, amargando a triste estatística de 1.873 mortes violentas. 

Devido à magnitude do problema, União, Estado e Município têm o dever de sentarem à mesa a fim de apresentarem aos moradores de favela, que são os que mais sofrem com a violência, políticas públicas que tenham como objetivo diminuir tão alto índice de letalidade", declara Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz.


PLACAR DA VIOLÊNCIA

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Acabamos de atualizar o "Placar da Violência", na Lagoa. Nós o fazemos mensalmente, apresentando a estatística de mortes violentas e os nomes das crianças vítimas de bala perdida. 

Até os Jogos Olímpicos, mantínhamos os nomes de todos os policiais militares assassinados, porém, por preocupação com a imagem da cidade nas Olimpíadas, a Prefeitura do Rio retirou todos eles. Mais de 100. Mas, vamos voltar. 

Nosso objetivo é manter um protesto permanente, num dos cartões postais da cidade, contra a mais grave violação de direito. 

Lutamos por uma cultura de respeito à santidade da vida humana no Brasil.

VEJA OS NÚMEROS

O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou na semana passada a terceira estatística de 2017 sobre a criminalidade no Estado. Os dados são estarrecedores. A análise comparativa entre os meses de janeiro a março de 2015, 2016 e 2017 demonstra que este ano foi o mais sangrento.

2015 jan-mar
Homicídio doloso: 1.150
Lesão corporal seguida de morte: 11
Latrocínio: 37
Auto de resistência: 201
Policiais militares mortos em serviço: 7
Policiais civis mortos em serviço: -
TOTAL: 1.406

2016 jan-mar 
Homicídio doloso: 1.244
Lesão corporal seguida de morte: 9
Latrocínio: 58
Auto de resistência: 160
Policiais militares mortos em serviço: 5
Policiais civis mortos em serviço: -
TOTAL: 1.476

2017 jan-mar 
Homicídio doloso: 1.475
Lesão corporal seguida de morte: 11
Latrocínio: 79
Auto de resistência: 302
Policiais militares mortos em serviço: 6
Policiais civis mortos em serviço: -
TOTAL: 1.873

Entre janeiro de 2007 e março de 2017, houve 61.518 mortes violentas no Estado do Rio de Janeiro. Nesse mesmo período, houve 56.260 casos de desaparecimento. Não há a mínima dúvida de que há gente assassinada nessa estatística. Contudo, o poder público do Estado do Rio de Janeiro ainda não sabe dizer quantos tiveram a vida interrompida pelo crime.

MORTES VIOLENTAS NO EST. DO RIO DE JANEIRO (2007 - MARÇO 2017)
Fonte: ISP

Homicídio doloso: 51.032
Lesão corporal seguida de morte: 422
Latrocínio: 1.756
Auto de resistência: 8.068
Policiais militares mortos em serviço: 200
Policiais civis mortos em serviço: 40
TOTAL: 61.518

"A miséria reinante nas comunidades pobres, a acefalia do governo estadual, o tráfico de armas e munições, a guerra às drogas, a falta de investimento nas polícias civil e militar, a corrupção escandalosa na mais alta esfera do poder público, a crise econômica, o colapso do projeto da UPP, a falta de engajamento da sociedade, são algumas das principais causas dessa estatística de guerra. União, Estado e Município têm o dever de sentar à mesa e apresentar à sociedade um plano para a diminuição de tão elevado e crescente índice de letalidade no Estado do Rio de Janeiro".

Antônio Carlos Costa
Fundador do Rio de Paz


LIÇÕES DA HOLANDA

Enquanto a Holanda fecha presídios por haver mais vagas nas prisões do que gente a ser presa, em virtude da queda da taxa de criminalidade, no Brasil os crimes disparam e o sistema prisional convive com o drama da superlotação. 

Desde a era colonial lidamos com o crime na base do tiro, pancada e bomba. Nada mudou. Matamos muito. Nos tornamos a quarta população carcerária do mundo, mas continuamos amargando estatística de homicídio própria de países que se encontram em guerra.

Vou declarar algo que muitos chamarão de ingênuo. A meta do homem não é matar é ser feliz. Praticar o crime é meio e não, fim. Há casos de psicopatologias severas, não se pode negar. Contudo, não é a experiência da maioria. 

Uma antropologia ingênua pode nos remeter à anarquia. Creio nisso. A impunidade deve ser combatida. Mas, isso é tudo? 

O que holandeses fizeram para diminuir o número de prisões no seu país? Será que podemos pensar em termos de medidas profiláticas e um modelo de sociedade que não funcione como obstetra do crime?


PESO DA LIBERDADE

54f2229e018e24ad256af92dddf50494Ontem à noite fui dormir com o estômago embrulhado e receio de vomitar. Recebi, poucos minutos antes de ir para a cama, imagens de um tribunal do tráfico. A vítima obrigada a comer a própria orelha e em seguida lentamente degolada. Não consegui ver tudo.
 
O noticiário também causa náusea. Na esfera pública multiplicam-se os crimes. O três poderes da República revelam-se visivelmente contaminados pela ganância, falta de escrúpulos e corrupção.
 
Nas redes sociais e meios de comunicação multiplicam-se imagens que degradam a dignidade humana, banalizando a dor, vulgarizando o sexo e nivelando os seres humanos aos animais irracionais. Faz parte da nossa cultura o prazer de exaltar publicamente nosso repúdio às normas e convenções sociais, ainda que isso nos exponha aos comportamentos mais vulgares e despropositados.
 
Parte da nossa música é repugnante. Vejo nas ruas pais, ao levarem seus filhos à escola, visivelmente constrangidos com o conteúdo do que crianças são forçadas a ouvir através de potentes caixas de som. Não é cultura transformar em canção cena de estupro coletivo sofrido por moça alcoolizada.
 
Vou parar por aqui. Poderia multiplicar os exemplos: o comportamento das torcidas em jogos de futebol, a forma como tratamos uns aos outros nas redes sociais, os flagrantes casos de violação de direitos humanos praticados pelo próprio Estado, a justificativa ideológica para a exploração do pobre, os deputados dando cusparada em seus pares em sessão do parlamento, a impunidade dos crimes contra a vida.
 
Obtivemos conquistas democráticas importantes nos últimos 25 anos. Há liberdade de imprensa e de expressão do pensamento. Em paralelo às liberdades civis e políticas, entretanto, percebe-se o avanço de uma forma de pensar que faz tábula rasa de todos os valores morais. Outro dia, uma amiga psicanalista me disse que no seu trabalho clínico percebe que a culpa deu lugar à depressão na vida dos seus pacientes. As pessoas não se sentem mais responsáveis por nada, apenas infelizes com a vida.
 
Liberdade não é tudo. Removidos os estímulos que nos levam a dela utilizarmos para sermos melhores, mais justos, mais educados, mais gentis, mais humanos, se transforma em anarquia e tirania da maioria.
 
O fracasso de um sistema educacional que não forma cidadãos cônscios dos seus deveres, o ensino do relativismo ético nas escolas e universidades, os lares destruídos pelo egoísmo de casais que seguem a mentalidade do "amor que seja eterno enquanto dure" e a falta de pregação de um evangelho que não se deixou contaminar pelo conservadorismo anacrônico e o progressismo sem amor estão por trás, entre outras causas, dessa pobre liberdade, que nos faz amargar os índices mais elevados de homicídio, desigualdade social, corrupção nas instituições do Estado. E medo.
 
Medo que nos faz perder de vista o fato de que "... aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra", como diz Christopher Hitchens, no posfácio de "A revolução dos bichos", obra-prima de George Orwell sobre o totalitarismo marxista-stalinista.
 
Antônio C. Costa 

CRISE NA SEGURANÇA PÚBLICA DO RIO EXIGE RESPOSTA CÉLERE POR PARTE DA SOCIEDADE E DO PODER PÚBLICO

01riodepaz3075Mais de 2.000 pessoas sofreram morte violenta este ano no Estado do Rio de Janeiro. A qualquer momento, pode acontecer um daqueles casos capazes de causar forte comoção pública; tais como, Vigário Geral, Chacina de Queimados, Candelária. 

A miséria reinante nas comunidades pobres, a acefalia do governo estadual, o tráfico de armas e munições, a guerra às drogas, a falta de reforma e investimento nas polícias civil e militar, a corrupção escandalosa nas mais altas esferas do poder público, a crise econômica, o colapso das Unidades de Polícia Pacificadora, o não engajamento da sociedade, são algumas das principais causas dessa estatística de guerra. 

União, Estado e Município têm o dever de sentar à mesa e apresentar à sociedade um plano para a diminuição de tão elevado e crescente índice de letalidade. Os movimentos sociais também deveriam se unir a fim de enfrentar a mais grave crise na segurança pública do Estado nos últimos 10 anos. 

Temo que um traço da cultura brasileira prevaleça sobre a necessidade de ação célere por parte do poder público e da sociedade, deixar para fazer amanhã o que deve ser feito hoje. 

Vivemos do seguinte modo no nosso país: crime-notícia-catarse-discussão-inação-impunidade. Não sei como não sentimos vergonha e não compreendemos que é responsabilidade nossa lutar pela preservação do direito à vida.


MORRER PELO TRABALHO E VIVER SEM RAZÃO

18268533_1904498146431003_2814679450503818985_nNesses últimos dias, mantive diálogo com duas pessoas que me levaram a pensar mais uma vez sobre os direitos trabalhistas.

No sábado passado, uma jovem muito bem sucedida, cujo salário a faz situar-se naquela faixa de renda na qual se encontra 1% da população brasileira, desabafou comigo sobre as horas gastas no trânsito, a falta de tempo para se dedicar ao marido, a impossibilidade de se envolver em projetos sociais, a agenda sufocante que não lhe permite ler bons livros. Com lágrimas, declarou: "o tempo que dedico ao trabalho vai de encontro aos meus valores cristãos". 

Hoje, um amigo falou dos problemas que enfrenta no casamento por conta de um novo cargo que sua mulher passou a exercer numa multinacional, e que agora, em não poucas ocasiões, a faz sair de casa às 7h para voltar às 23h. Sem tempo para os filhos, o marido e o cuidado da sua saúde, teve que recorrer a terapia de casal a fim de o casamento não ruir de vez.

Pense nas contradições desse tempo: 

1. Os que dizem defender a família, como valor supremo da sociedade, apoiam um modelo político-econômico que destrói os lares, leva ao consumo de drogas e álcool, atrofia a razão, murcha a alma e engorda o corpo. 

2. Uma falsa consciência forjada por uma cultura cujos contornos são definidos pelo poder econômico -com toda a sua capacidade de influenciar as artes, o noticiário e o discurso religioso-, leva os que se tornaram escravos do sistema a não lutar pela sua própria libertação, julgando que há fundamento metafísico para um tipo de vida que não faz o mínimo sentido. 

3. Os que combatem a estatolatria, fazendo oposição a toda espécie de regulamentação que humanize as relações trabalhistas, não percebem que abandonaram um ídolo para servirem a outro, o mercado, que, segundo julgam, com sua mão invisível e benevolente haverá sempre de cuidar dos anseios dos que envelhecem antes do tempo de tanto trabalhar. 

Termino com um texto de Êxodo 5: 6-8: 

"Naquele mesmo dia, pois, deu ordem Faraó aos superintendentes do povo e aos seus capatazes, dizendo: Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como antes; eles mesmos que vão e ajuntem para si a palha. E exigireis deles a mesma conta de tijolos que antes faziam; nada diminuireis dela; estão ociosos e, por isso, clamam: Vamos e sacrifiquemos ao nosso Deus".

A quem interessa e quem inventou esse modelo de sociedade no qual vivemos? O que nos rouba? Por que não lutamos pela nossa libertação? 

Antônio Carlos Costa


DELAÇÕES PREMIADAS E A NATUREZA HUMANA

52733111_PA-Rio-de-Janeiro-RJ-12-12-2014A-presidenta-Dilma-Rousseff-participa-da-inauguracao-do-PAs delações premiadas da Lava-Jato assustam pelo que revelam sobre o modo como nós seres humanos lidamos com a vida.

Apavorados com a ideia de apodrecerem nas celas úmidas, superlotadas, quentes e insalubres do sistema prisional brasileiro, empresários, publicitários e políticos revelam segredos e intimidade daqueles com quem viajavam, comiam e bebiam enquanto fechavam negócios escusos, que fizeram escoar pelo ralo da corrupção o dinheiro do pobre. 

Podemos imaginar a cena: "não é possível que ele vai falar sobre isso"; "Meu Deus, somos amigos!"; "Ele está traindo a causa"; "Será que ele está se esquecendo que também o tenho em minhas mãos?"; "Safado, não moveu uma palha, enquanto aqui permaneço nessa pocilga aguardando minha condenação final. Vou incluí-lo na minha delação". 

Nós homens, realmente, não temos ideia do que somos capazes de fazer quando nossas vidas são submetidas a determinadas pressões. Lembro-me do comentário de C. S. Lewis sobre a virtude da coragem, "aquela capaz de manter todas as demais virtudes firmes no momento da mais alta prova. Sem ela, somos castos, justos, leais, apenas sob certas circunstâncias". É tudo muito humilhante para você e para mim.

Tudo isso nos remete aos modelos de sociedade pelos quais deveríamos lutar. 

Ao término das duas grandes guerras mundiais ocorridas no século passado, os europeus chegaram à conclusão de que deveriam evitar as crises econômicas que antecederam ambos os gigantescos conflitos bélicos, a fim de que a Europa não extraísse dos seus cidadãos aquilo que tinham de pior. Os seres humanos, em geral, negociam princípios e valores quando expostos ao desemprego, à escassez e à miséria. Por isso, o cristianismo declara que somos pecadores. 

O que os europeus aprenderam com a história e que os levou a pensar em termos de determinadas políticas públicas? Lutemos pela economia de mercado, pela produção de riqueza, mas não deixando jamais nossas nações entregues à mão invisível do capitalismo, como se ela fosse a mão de uma mãe zelosa pelo bem-estar dos seus filhos. Que o Estado assuma certas responsabilidades, garantindo direitos sociais básicos e atuando de modo profilático a fim de se antecipar a crises econômicas capazes de jogar homens contra homens. 

As delações premiadas revelam quem somos, como funcionamos e como respondemos aos problemas da vida. Nossos magistrados souberam jogar com a natureza humana. 

Por isso, não podemos nos submeter a ideologias políticas e teorias econômicas capazes de gerar condições sociais que servem de obstetras da maldade.

Como diz Adam Smith: "Nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz enquanto a maior parte de seus integrantes for pobre e miserável".

 

Antônio C. Costa