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setembro 2016

PREGAÇÃO E TRANSPARÊNCIA INTELECTUAL

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Começo no próximo domingo uma nova série de exposições bíblicas na Igreja Presbiteriana da Barra, no Rio. Dessa vez, farei análise, verso por verso, sobre o Evangelho de João.

Isso significa que o púlpito da igreja continuará sendo pautado pelas Escrituras. Serei, consequentemente, forçado a pregar sobre os mais diferentes temas, tanto os que são palatáveis para o homem moderno, quanto aqueles que podem ser vistos como culturalmente ofensivos. 

Acredito que esse método favorece a transparência teológica e intelectual. O pregador, ao usá-lo, não tem como ocultar o que pensa por meio da seleção arbitrária de passagens sobre as quais lhe é conveniente pregar, uma vez que o eximem de assumir ponto de vista público sobre temas controversos.

O protestantismo brasileiro precisa de reforma urgente do púlpito. Quisera que, no domingo que vem, pessoas saíssem das igrejas do nosso país sabendo o significado do texto bíblico escolhido pelo pregador, bem como de posse das implicações práticas para a sua vida.

Antônio Carlos Costa


BERÇO EVANGÉLICO

Alone-16Ao se tornar membro de uma igreja evangélica no nosso país, o brasileiro passa a conviver em que ambiente cultural?
 
1. Lei e ordem.
O Estado existe para garantir a paz social através do uso do poder da espada. A criminalidade é fruto de leis frouxas, da não aplicação das sanções penais e de toda tentativa de amarrar o braço da polícia.
 
2. Estado mínimo.
O Estado não pode assumir o papel de babá dos seus cidadãos. Quem cuida do necessitado é a sociedade. Essa generosidade com dinheiro público quebra o Estado. Estimula a vagabundagem. Políticos inescrupulosos podem usá-la para se perpetuarem no poder.
 
3. Família valor supremo.
Temos de preservar a família. O conceito clássico e cristão está sendo desafiado pelo relativismo moral.
 
4. Não há esperança para este mundo.
Este mundo está condenado pela Bíblia. Não estamos aqui para melhorar o inferno. O Titanic está afundando. Preguemos para que as pessoas sejam salvas. Aguardemos o fim.
 
5. O homem é responsável por suas ações.
A culpa é pessoal e intransferível.
Mata quem quer. Pratica o crime quem quer. A saída, portanto, é prender, prender e prender.
 
Poderia falar muito mais sobre a cultura predominante hoje no meio evangélico do nosso país. Vale a pena ressaltar, que há variações, temos pessoas que pensam de modo diferente e muitos que não pensam em nada; esperam apenas receber força no domingo para enfrentar a segunda-feira.
 
O que me preocupa? Uma questão básica: como vive nessa cultura religiosa quem ama a Cristo, mas tem perguntas a fazer ao sistema? Veja algumas que podem ser feitas ao pastor da igreja:
 
1. Reverendo, quem pensa diferente sobre o papel do Estado na sociedade deve ser considerado anti-bíblico? Crente tem de acreditar no Estado mínimo? Toda a teologia do Estado está contida em Romanos 13?
 
2. Reverendo, por que o governo Holandês está fechando prisão? A meta do homem é matar ou ser feliz? Qual a razão de crianças suíças não praticarem, com faca na mão, roubo de bicicleta nas ruas? É por causa da severidade das leis? Reverendo, é só lei e ordem? Concordo com o senhor sobre o monopólio do uso da força por parte do Estado. Mas, por que vocês falam mais sobre lei e ordem do que sobre justiça social?
 
3. É bom para a sociedade o policial agir ao arrepio da lei? Qual polícia, por maior que seja seu poder de fogo e liberdade para matar, dá conta de criminalidade endêmica, histórica, disseminada, nesse cenário de desigualdade social e pobreza em que vivemos? Reverendo, o senhor não acha que tem muito policial morrendo, deixando família desamparada, por força de uma política de segurança que nunca deu certo? No Rio de Janeiro, reverendo, a polícia matou, desde 2007, quase 8.000 pessoas. Mas, nada mudou. Mais um ponto. O senhor me perdoe a petulância. Por que a nossa igreja não protesta quando policial é morto?
 
4. Reverendo, é bom para a sociedade torturar o detento? Manter presídios superlotados? Prescrever pena de detenção para ladrão de galinha? Reverendo, se o seu filho, numa noite qualquer, após beber umas cervejas, cometesse um delito, que não representasse grave ameaça à ordem pública, e fosse parar em Bangu, o senhor aprovaria? Por que no caso do jovem negro e pobre permitimos que penas desproporcionais aos crimes praticados sejam aplicadas? O senhor acredita em pena alternativa?
 
5. Reverendo, concordo com seu discurso sobre a economia de mercado. Ouvi o senhor dizer que, se não promovermos a riqueza, seremos forçados a socializar a pobreza. Mas, qual igreja dá conta do sertão do nordeste, reverendo? O senhor diz que essa é a tarefa da sociedade. Mas, reverendo, quantas pessoas o senhor conhece que estão envolvidas com os pobres e têm tempo para isso? Qual igreja, reverendo, dá conta das favelas brasileiras? Reverendo, ao não cobrar do Estado a implementação de políticas públicas nas comunidades pobres o senhor não estaria se insurgindo contra a autoridade constituída por Deus? Reverendo, a Constituição Federal brasileira obriga o Estado a prover educação, segurança, saúde, moradia, saneamento, aos seus cidadãos. Admito que o senhor possa não gostar da Constituição Federal; mas, reverendo, ficaria triste com o senhor se chamasse de marxista que está apenas querendo ver a lei ser cumprida.
 
6. Reverendo, vejo o senhor falar muito sobre família. É muito claro que a família é ideia de Deus. Recuso-me a considerá-la valor burguês. Mas, o senhor não acha que o modelo econômico que o senhor apoia, através dos seus livros e pregações, está matando a família? Vejo meu pobre pai, envelhecido, sendo explorado no trabalho, trabalhando seis dias por semana, dez horas por dia, para ganhar quase nada e sem tempo para o que mais ama na vida.
 
7. Vejo o senhor combatendo a imoralidade. Perdoa-me, reverendo, mas o senhor não acha que está pregando mais moralidade do que evangelho? Vejo o senhor esperando que não cristãos se comportem como cristãos. O senhor não acha que o que a humanidade mais necessita não é de moralidade, mas de poder para fazer o que sabe que deve fazer e não consegue? Esse poder não é o evangelho, mais poderoso do que qualquer coisa desta vida?
 
8. Reverendo, entendo que há no homem uma natureza de bode. Acho, até mesmo, que, sob um aspecto, Hobbes foi bíblico ao dizer que "o homem é o lobo do homem". Vejo, contudo, que vivemos num mundo melhor. Temos democracia, os direitos da mulher são mais respeitados e a escravidão virou crime. Tudo isso, reverendo, fruto de luta política, nas ruas e no parlamento. O senhor me perdoe, mas seu pessimismo é injustificável. Há vida a ser vivida pelo cristão fora do templo. Eu quero estar com Cristo onde a luta se travar, reverendo. Perdão pelo hino pentecostal...
 
9. Reverendo, eu vejo nas Escrituras culpas coletivas. Sociedades inteiras que foram repreendidas pelos profetas pelos seus pecados transformados em cultura. O senhor não acha que sua pregação põe muita ênfase na responsabilidade pessoal e pouca no papel corruptor do sistema? O senhor acredita no conceito de responsabilidade diminuída? A quem muito foi dado muito não lhe será cobrado? Se as pessoas viverem com mais dignidade não se comportarão de modo mais decente? Veja, reverendo, que muitos dos delitos que europeus cometeram -para sobreviver- durante a ocupação nazista e o totalitarismo marxista-stalinista não são mais praticados.
 
10. Reverendo, eu creio na inspiração da Escrituras, sou grato pelas suas pregações terem me conduzido a Cristo e o tenho como verdadeiro irmão na fé, mas há espaço para uma pessoa como eu na sua igreja?
 
Fico a perguntar, qual mão embala esse berço e onde ele foi feito?
 
 
Antônio Carlos Costa

FUI TOLO

1810149728_ca95f6fa0eO primeiro artigo foi atribuído à pressão que estaria sofrendo por parte de presbiterianos conservadores. O segundo, à reação da turma da missão integral. O terceiro, ao desejo de ficar bem com todo mundo.

Pensemos assim:

1. Não julgueis para que não sejais julgados é tolice de gente ingênua. 

2. As tentações sobre as quais falei são sentidas apenas por uns poucos.

3. Não há entre os simpatizantes da missão integral vestígio dos pecados que mencionei. 

4. A agenda da direita evangélica é absolutamente bíblica.

5. No protestantismo brasileiro não há pessoas mais de direita ou esquerda do que cristãs. 

6. A igreja está na vanguarda das transformações político-sociais do Brasil.

7. Estamos atravessando um avivamento. 

8. Não há no meio evangélico brasileiro receio de perder espaço e investimento por falar o que pensa. 

9. Não existe problema de interpretação de texto entre os evangélicos brasileiros.

10. Não há adeptos da missão integral prejudicando a causa com o seu comportamento, preferências ideológicas e discurso que não se coaduna com a prática.

11. Há homogeneidade entre os adeptos da missão integral. 

12. Não existe cooptação conservadora de direita no meio evangélico. O único mal é a ameaça marxista.

13. O pensamento da esquerda não representa nenhuma ameaça à fé cristã. 

14. A teologia feita no Norte das Américas é culturalmente neutra e de total aplicação no Sul das Américas.

15. Existe gente no país fazendo teologia que, devido à exatidão e amplitude, exige a submissão intelectual completa de todos os homens cultos. 

16. A presença de 45 milhões de evangélicos no país tem sido decisiva para a implementação de políticas públicas nas áreas carentes. 

17. Andar somente com os que pensam o que eu penso é ótimo para o meu aperfeiçoamento intelectual, uma vez que faço parte de um segmento da igreja que detém o monopólio da verdade, e que, portanto, não tem nada a aprender com aqueles de quem discorda. 

18. Não há possibilidade de não cristãos se escandalizarem com a forma como os evangélicos lidam uns com os outros nas redes sociais.

19. Não existe inveja profissional entre os pastores evangélicos brasileiros. Nossas divisões são todas de natureza exclusivamente teológica. 

20. Somos hoje referência de retidão para a nação e luz para os povos. 

 

Antônio Carlos Costa

Ps1. Quem escreveu este artigo não tem do que se arrepender na vida, sabe tudo e não se sente orgulhoso por fazer confissão tão humilde.

Ps2. Não há evangélicos fazendo o bem, tudo é uma desgraça e Deus não tem um povo no Brasil.