OS EFEITOS NA VIDA DA IGREJA DO RECONHECIMENTO DA
AUTORIDADE ESPIRITUAL DE CRISTO
MARCOS 11: 27-33
INTRODUÇÃO
“Com que autoridade estas fazendo estas coisas? Quem te deu autoridade para fazê-las?” A pergunta hipócrita que a liderança judaica fez a Cristo tem grande razão de ser. Ninguém pode falar em nome de Deus sem legitimidade. Tem-se que ter autoridade divina para falar sobre a relação do homem com o seu Criador. Ninguém pode botar na boca de Deus o que Deus nunca falou. De igual modo, nenhum líder religioso pode se levantar para reformar a igreja sem que se tenha um modelo divinamente inspirado que sirva de referência para o que pretende fazer.
A indagação dos líderes religiosos deveu-se ao que Cristo estava fazendo com grande independência no templo. O que Cristo fizera de tão ofensivo a ponto de despertar a ira dos teólogos e sacerdotes do seu tempo?
- Cristo estava pregando uma estranha mensagem de boa nova (Lc 20: 1-8). Tratava-se de algo que questionava todo um sistema de espiritualidade socialmente construído, caracterizado pela formação de um modelo de relação com Deus patológico, alicerçado em desempenho e sujeição a uma cultura religiosa humanamente criada.
- Cristo estava afirmando que a instituição “templo” havia se transformado no seu oposto, o que é sempre a tendência das grandes instituições religiosas e movimentos de renovação espiritual. Pessoas estavam usando o templo não para se aproximar de Deus, mas para se aproximar do dinheiro. Ela não se dirigiam para ali a fim de se arrependerem, crerem, serem curadas e servirem ao próximo. Eles estavam ali para servirem a si mesmas, explorando os homens, e com a chancela da liderança religiosa.
O quadro de decadência espiritual do povo era irreversível, a ponto de o Senhor Jesus usar -a metáfora-milagre da morte da figueira amaldiçoada pela palavra de Deus- como forma dramatizada de dizer o que estava para ocorrer com Israel. Sua vida espiritual murcharia e o grande privilégio que obtivera como nação portadora da revelação de Deus seria passado para um outro povo, que haveria de reproduzir os seus respectivos frutos: “Portanto eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê os frutos do Reino” (Mt 21: 43).
Todo trabalho de renovação e avivamento espiritual quase sempre terá a oposição da aristocracia espiritual detentora de privilégios, que é capaz de viver confortavelmente usando como estratégia a exploração dos dramas de consciência dos homens. Por isso, a vontade dos líderes religiosos judaicos de matarem a Cristo.
Tudo isso, portanto, deu ensejo à pergunta do verso 28. Feita, contudo, sem o sincero propósito de se conhecer a verdade, e seguida da recusa de Cristo de respondê-la, uma vez que Deus não tem interesse em responder perguntas desonestas. Aqueles homens experimentaram o silencio divino, a pior forma de maldição que existe, ficando privados do conhecimento do evangelho, por estarem brincando de religião. Ninguém usa o nome de Deus impunemente.
Um fato merece destaque nesta passagem, sendo de fundamental importância para o entendimento da mesma: Cristo não estava num templo pagão. Essa passagem não está falando sobre a degeneração do paganismo, mas sobre a degeneração da religião revelada. Suas implicações, portanto, para a vida da igreja são de valor incalculável.
DOUTRINA: O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO É A ÚNICA GARANTIA PARA QUE NÃO SEJAMOS MORTOS PELA RELIGIÃO.
1. O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO IMPEDE A IGREJA DE MURCHAR (Vs. 13, 14, 20).
Não há dúvida quanto ao fato de que aquela figueira representava Israel. O Senhor Jesus estava profetizando. Deus havia escolhido soberanamente a Israel para constituir um povo para Si, e que fosse, ao mesmo tempo, luz para as nações do mundo inteiro (Gn 18: 18-19). O povo da aliança, contudo, rejeitou o gracioso chamado divino, transformando sua relação com Deus no exato oposto do que Ele havia estabelecido mediante pacto solene e absolutamente claro.
Naqueles dias, Deus, na pessoa do seu Único Filho, mediante o exercício da sua soberania, estava passando para outros povos -o privilégio de valor incalculável- de ter Israel como único povo na face da terra capaz de revelar as perfeições do seu Redentor. Esse é um princípio do mundo espiritual: quando um homem, igreja ou nação rejeitam a oferta graciosa de Deus de ser veículo da sua verdade, esta honra é suprimida e passada para aquele que haverá de não menosprezá-la. A Bíblia está repleta desses exemplos.
2. O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO CONDUZ A IGREJA A PASSAR PELA SEMPRE NECESSÁRIA CRISE DE SUBVERSÃO DA ORDEM (V. 15-16).
Sem Cristo não há crise, confusão, mesas e cadeiras derrubadas, sacerdotes excomungados. Sem Cristo não há reforma. As pessoas não sentirão a necessidade dela e nem saberão como levá-la a cabo. Sem Cristo a igreja sempre haverá de gozar da paz do cemitério. É a presença de Cristo na igreja que faz o povo de Deus questionar o presente, buscar a referencia do passado e avançar para um futuro de maior nível de santidade. Sem Cristo os sermões não perturbam, as orações não representam gemido de arrependimento e a igreja permite a si mesma entrar no mercado livre da competição religiosa.
3. O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO LEVA A IGREJA, EM PERÍODOS DE APOSTASIA, A RETORNAR AO IDEAL EXPRESSO PELAS ESCRITURAS ( V. 17).
Sem Cristo ninguém se levanta para dizer: “Está escrito”. Não há retorno para os grandes sonhos de Deus para a vida do seu povo. Todos tornam-se escravos de uma cultura religiosa socialmente construída. Estabelece-se a realidade da religião sem Deus, alma, fogo, paixão, lágrimas, perplexidade, espanto, encanto, amor, louvor, adoração. O templo não é mais “casa de oração”. Perde-se a percepção do fato de que a maior benção que Deus tem a nos ofertar é ele mesmo, de cujo ser podemos nos aproximar mediante o canal da oração. Esta, sem sombra de dúvida, é a principal missão da igreja: botar as pessoas para se relacionarem com Deus.
Sem Cristo não há oração, uma vez que não procuramos a presença de quem é desinteressante. Conhecer a Deus sem a revelação de Cristo vai significar sempre tremer enquanto crer.
4. O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO IMPEDE A IGREJA DE TORNAR-SE SUJEITA AO COMANDO DOS ASSASSINOS DE CRISTO (V. 18, 27, 31-33).
Não se sujeitar a Cristo significa se sujeitar a alguém; avaliar a relação com Deus a partir do ponto de vista de seres finitos, tendentes ao mal, incapazes de falar de um ponto de vista neutro livre de condicionamentos histórico-culturais. É procurar algo melhor do que a luz do sol para enxergar. É ser convidado pelas forças das trevas, através dos seus mensageiros, para conhecer um Deus que mais se parece com o Diabo. Conhecer a Deus sem a intermediação de Cristo é ter um encontro com Satanás.
5. O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DE CRISTO PERMITE À IGREJA CONHECER O EVANGELHO (V. 33).
Conhecer a autoridade de Cristo significa conhecer o evangelho. É ter acesso ao pacto santo da redenção estabelecido nos tempos eternos entre as pessoas da Trindade. Como Cristo poderia falar sobre a sua autoridade sem falar sobre a glória do decreto divino de salvar a igreja? Se o Senhor Jesus tivesse atendido ao pedido dos líderes religiosos judaicos, teria pregado o evangelho para eles de modo mais íntimo e particular do que fizera no templo. Acontece que este privilégio é dos discípulos.
A resposta de Cristo aos líderes religiosos judaicos é o que de pior pode acontecer na vida de um homem. Significa Deus ocultar para sempre o evangelho, deixando o pecador sem solução para o problema da sua culpa diante de Deus. É o que os puritanos chamavam de “endurecimento judicial”. Alguém já falou sobre “a desatenta frieza surda do cosmos”. Aqui estamos diante do silêncio de um Ser amabilíssimo e que se recusa, contudo, a falar da sua verdade eterna a quem não dá valor a ela.
APLICAÇÃO
Tudo o que acabamos de ver nesta importante passagem deveria nos levar às seguintes precauções:
1. NUNCA MENOSPREZAR AS OPORTUNIDADES QUE DEUS NOS DÁ EM VIDA DE GLORIFICAR O SEU NOME.
A imagem da figueira murcha é a própria imagem de Israel. Ela revela o que o povo fez com as incomparáveis manifestações da graça de Deus em sua vida. Por causa de tamanho menosprezo, o povo da aliança recebeu a palavra de Deus que o fez secar pelas raízes. Não brinque com o sagrado.
2. SUSPEITAR DA PAZ DO CEMITÉRIO.
Nenhuma igreja está imune a esse tipo de subversão do status quo. Há momentos em que a ordem estabelecida precisa ser questionada. A falta de perturbação e percepção da necessidade de reforma no seio da igreja pode conduzir seus membros a falsa paz, onde todos estão contentes consigo mesmos e ninguém mais se aproxima de Deus com o coração contrito e quebrantado. A presença de Cristo na igreja produzirá sempre reforma.
3. CONSTRUIR IDEAIS A PARTIR DO PRINCÍPIO DO SOLA SCRIPTURA.
“Está escrito”, foi o que o Senhor Jesus disse no templo em Jerusalém. Não podemos falar sobre reforma da igreja sem mencionarmos o paradigma bíblico. Não podemos confundir nossa interpretação da Bíblia com a própria Bíblia. Precisamos guardar as Escrituras como um todo, jamais negligenciado porção alguma da Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, no entanto, precisamos ressaltar o que é essencial para a vida da Igreja, como o Senhor Jesus o fez no templo. Ele tratou do que era central: “minha casa será chamada casa de oração”. Ele não estava perdendo o seu tempo com irrelevâncias.
4. SABER A QUEM OUVIR.
Até que ponto honramos autores e pregadores de acordo com o seu nível de fidelidade a Cristo? Aquelas pessoas estavam entregues a uma liderança religiosa que tencionava praticar uma espécie de “Teocídio”. Eles queriam matar a razão de ser do templo. Lembre-se que lidar com religião sem a intermediação de Cristo é o que de pior você pode fazer pela sua alma. É impossível não sair machucado. Não entregue o cuidado de sua alma aos falsos profetas.
5. RECUSAR SEMPRE QUALQUER PROJETO DE ESPIRITUALIDADE QUE NÃO SEJA ESSENCIALMENTE MEDIADO PELO EVANGELHO.
Foi a falta de compreensão do evangelho que transformou a experiência religiosa do povo de Israel em algo parecido com o paganismo. Nenhuma instituição cristã está imune a este tipo de problema. O evangelho tem que ser pregado. Mas a vida da igreja também tem que ser evangélica. O evangelho deve servir de princípio regulador de procedimentos, formação de instituições e metas.
CONCLUSÃO
Conhecer a autoridade de Cristo é conhecer o evangelho. Conhecer o evangelho é ser salvo da religião.
Antônio Costa

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