A organização social alcança seu ápice na história da humanidade na queda do governo absolutista e na entronização da autoridade da lei democraticamente estabelecida. Houve época em que homens apresentavam-se como enviados dos céus para determinarem, de modo autoritário, o destino de vidas humanas. Pessoas eram espoliadas dos seus bens, impostos abusivos minavam a renda de trabalhadores, jovens eram lançados em guerras sem sentido, camponeses gemiam no frio e no calor sem terem a quem clamar. São incontáveis os flagelos trazidos por esse tipo de organização política. Impossível enumerá-los. E tudo isso feito com o aval de lideranças religiosas que -usavam o nome de Deus-, para a manutenção da irracionalidade de um sistema estribado na autoridade de um enviado divino que escravizava aquele a quem Deus criara.
Houve quem olhasse para isso e percebesse a falta de sentido de um modelo de organização social que tornava a vida em sociedade eterno suplício. Ficar sujeito à vontade de um deus que defeca, urina, morre de câncer de próstata, participa de bacanais e que usa da sua autoridade de modo inquestionável para servir-se do sistema, enquanto pessoas derramam literalmente o seu sangue para a preservação do que as avilta. Nem segurança nem liberdade. Apenas uma vida não tão ruim quanto a completa anarquia do caos da luta de todos contra todos. Como dizia a velha canção do período do regime militar brasileiro: "morrer pela pátria e viver sem razão".
Os regimes absolutistas foram sobrepujados por um outro modelo de organização política. O rei não seria mais a lei, e sim, a lei democraticamente estabelecida. Agora, todos passavam a se ver como iguais perante o seu próximo bem como perante a lei. E não apenas isso: passaram a ter a quem apelar. Instituições foram criadas para preservar a segurança e a liberdade dos membros voluntariamente pactuados em torno de uma constituição estabelecida pela vontade do povo e visando a felicidade do maior número possível de pessoas.
Sei que parte do que está sendo falado, na prática, não funciona como gostaríamos que funcionasse. Pelo menos temos a coisa como princípio inquestionável. E muita injustiça foi eliminada. Um Herodes que aparecesse hoje, na sacada de um palácio, como um semideus, certamente veria pessoas arriando as calças para ele mostrando o traseiro. Tudo isso foi um avanço.
O que apreendemos da história da passagem de regimes absolutistas para Estados regidos por uma constituição?
O mundo pode melhorar. O pessimismo de milhares de cristão brasileiros não resiste aos fatos históricos. Não estou dizendo que o mundo de hoje é o mundo ideal. Muitos menos afirmando que não houve retrocessos. Mas é fato inquestionável que vivemos uma vida melhor do que os nossos antepassados viverem na Europa antes da Revolução Francesa.
Essas conquistas não foram obtidas sem fadiga física e intelectual. Pessoas morreram pelo ideal democrático. Tantas outras dedicaram anos de reflexão aos temas da igualdade, liberdade e fraternidade.
Devemos ser gratos por aqueles que, no passado, mediante sangue, suor e lágrimas, nos legaram um mundo mais justo. O que estamos fazendo pela próxima geração?
Antônio Carlos Costa

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