O futebol me intriga. Já tentei várias vezes tirá-lo da minha vida, mas sem sucesso. Simplesmente não entendo essa paixão. Quero me desligar, e quando vou ver, estou virando o botão do rádio para saber o resultado do Botafogo.
Sei que passei a torcer pelo Botafogo por causa da influência do meu pai. Desde de cedo ele me doutrinou. Verdadeira catequese. Como diria João Saldanha, saudoso comentarista esportivo do Rio: "Ninguém é filho de chocadeira". Em geral, tem um pai por trás dessa escolha.
Outro dia alguém para me provocar, alfinetou: "Não sei de onde vem está história que o Botafogo é o glorioso". Pedindo graça a Deus para não me exceder na resposta, disse: "Porque nós demos três títulos de campeão do mundo para este país. Na copa de 62 cinco titulares eram do Botafogo, num time sem Pelé". Indago: qual o sentido disso?
Tudo o que sei é que sou Botafogo. Não consigo vestir a camisa de nenhum outro time de futebol. O escudo, o hino, a bandeira, Garrincha, Jairzinho, General Severiano fazem parte da minha vida. Não tenho a mínima justificativa, mas é o que se passa comigo.
Algumas questões emergem: Em quantas outras áreas da nossa vida nossas escolhas seguem o mesmo processo? O que há em nós para o que não há nenhuma razão objetiva, apenas algo incorporado na infância, fixado no coração por laços de pura emoção, sem nenhum motivo racional? Quantas paixões nos governam a ponto de brigarmos por nada? Por que o juiz apita a falta e parte da torcida xinga enquanto a outra aplaude? Será que nossas discussões sobre os mais diferentes assuntos da vida não seguem em grande parte o mesmo padrão? Até que ponto nossas paixões pervertem nossa avaliação racional do fatos?
Continuo intrigado tanto com o Botafogo quanto com essas questões da vida. Peço graça a Deus para me conhecer melhor, ouvir mais, pensar na possibilidade de estar errado, vencer preconceito. Sei que a luz do evangelho é poderosa para atingir o recôndito da alma, quebrar as amarras emocionais, vencer os condicionamentos das paixões humanas e fazer a verdade se manifestar. Por isso, oro: "Não permita que cultura, família, tradição, traumas e condicionamento de espécie alguma me impeçam de ficar do lado da verdade.
Espero que aconteça na sua e na minha vida algo bem parecido com o hino do Botafogo: "Na estrada dos louros, um facho de luz, tua estrela solitária te conduz". Pirei de vez. Mas você me entende. Peço fogo pra você e pra mim.
Antônio C. Costa

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